Começo #1

Acho que, desde o começo desta vida, achei o mundo grande. Será possível que eu lembre de como era quando havia acabado de chegar? Talvez eu esteja inventando, provavelmente estou. Mas talvez também esteja lembrando de algumas micro partículas de sentimentos desse início e decidindo seus nomes.
Sempre invejei as pessoas que dizem ter lembranças nítidas de quando eram bebês; aquelas que lembram, no meio da terapia, de um dia em que estavam no berço, no colo, no peito… Invejo porque o começo da vida é um grande oráculo.

Eu não tenho lembranças a esse ponto, mas o fio que me liga ao primeiro passado funciona como um farejador de emoções antigas. E, é curioso, quando vejo certas fotos minhas de criança, olho meus olhinhos, meus gestos, reconheço uma sensação de querer ficar protegida na coxia das situações; porque o mundo era sim, grande e movimentado. Como eu caberia em um lugar tão imenso?
Mas, pior, como a imensidão caberia em mim sem me acabar completamente?

Emoção complexa para uma criança, não é? Evidente que essa é a elaboração de uma adulta, mas o sentimento é desde a infância e o que me diz isso é mais a memória corporal do que qualquer outra. Possivelmente, também, complexidades assim são comuns às crianças; nós é que não conseguimos escutar propriamente a língua delas ou não suportamos reviver completamente a criança que fomos.

Enfim, suponho que achei o mundo grande desde o dia um. E gosto de pensar que cheguei à noite, que aceitei deixar o útero da minha mãe depois das 23h, porque o silêncio é mais forte a essa hora, porque a madrugada é mais dona do sossego do que o dia.

Não que, por isso, eu tenha sido uma criança reclusa, fui uma menininha feliz, cheia de amigos, muito bem cuidada e amada. É sorriso o que costuma me invadir quando lembro dessa fase e, se são lágrimas, em geral é por conta da saudade.

A sensação de que a imensidão do mundo, das coisas, dos outros, teria o poder de acabar com meu território interno; advinda de uma tendência de absorver o entorno profundamente, foi menor que todas as felicidades de ser criança.

Foi algo que esteve comigo o suficiente pra ser notado e que, vira e mexe, ainda me visita. Bem menos a fantasia de que o que vem de fora pode tomar, dentro de mim, o meu lugar, e mais a noção de que o que não é meu ocupa muito espaço mesmo. O mundo que não me pertence é grande demais pra ficar comigo e morar no meu corpo além da conta. Devo deixá-lo na mesma medida em que o posso perceber.

Minha primeira natureza é assim, porosa. Mesmo o que eu não amo e a quem não amo, percebo como se tivesse escolhido trocar ali com a coisa ou com a pessoa camadas de conversa. Como se tivesse escolhido, mas sem escolher. Já as outras naturezas tive de ter tempo pra criar e aprender. Isso de não levar na carne, no coração, na alma e no pensamento o que não é meu, foi aprendido. Por sobrevivência; é muito pesado carregar o que não é nosso, a carga pessoal já é, por si só, bastante.

Acho então, do que posso recordar no fundo do centro do tórax, que desde o começo me assustou a possibilidade de eu me perder. Medo de ficar sem mim. Principiei com vontades e abertura mas desconfiada na mesma medida. Até hoje sei bem onde guardo essa “skin” aqui dentro.

Olhando por esta perspectiva, deve parecer engraçado que eu esteja me expondo aqui no blog e, mais ainda, que trabalhe com palco e que o ame e o respeite como um espaço sacro. Se você está me lendo ou ouvindo pela primeira vez, escrevo amadoramente, mas sou cantora profissional e professora de canto há mais de 20 anos. Mesmo tendo sido essa criança permeável, temendo se perder na relação com o mundo, fui trabalhar com um instrumento que me expõe, me coloca muitas vezes em relação direta com quem me ouve e vice-versa. E sempre soube, não sei bem como, que seria assim. Voz, realmente, é o meu elemento coragem.

Foi por ela e com ela, inclusive, que abri todos os melhores espaços da minha vida. E, no meio do caminho, claro, criei as defesas necessárias pra seguir, como todo mundo faz e como “os porosos”, imagino, devem fazer à beça…

Vou pinçar apenas uma, antes que o texto se estenda demais, uma óbvia: muito do que fiz e vivi com meu corpo fez parte das construções defensivas.

O negócio das defesas é que se a gente exagera demais elas passam do limite. Além de ajudar a suportar a dor se tornam uma dor segunda, se viram contra nós, de repente se auto promovem da função de escudo para a função de cela.

Com esse corpo que levo e que me carrega fielmente pelo mundo maior que eu, passei por coisas desagradáveis enquanto construía as maravilhosas. Algumas das defesas passaram a se traduzir em muita tensão, muita asma, asma aguda grave, depressão e, de cabo a rabo, 42 anos engordando ou emagrecendo: ora muito, ora menos. Pouco tempo de estabilidade na magreza, certo tempo de estabilidade “na média”, bastante tempo de estabilidade na gordura.

Alguém que temia o tamanho do mundo não seria mais feliz e coerente vivendo num corpo pequeno, sumindo, ficando quietinha e salva nas tais coxias das situações? A questão é mesmo essa, é que eu nunca quis sumir. Posso até, no começo, ter sentido medo do tanto que podia absorver e escutar, posso ter querido algumas vezes me esconder por conta disso, como até hoje ocorre, mas também cheguei precisando e querendo dizer.

O quanto a asma e a melancolia se relacionam com esse suposto conflito, o quanto um corpo gordo me garante território suficiente pra que eu não me sinta sumindo, o quanto genética, sensibilidade e invenção de si mesma se conectam nesse balaio, não sei dizer.

Mas sei que quando escrevo sobre medo e perda sinto mais força mesmo que doa, sinto menos tristeza mesmo que eu chore, sinto menos fome, sinto menos compulsão. Mesmo que eu digite até cansar é mais satisfatório do que comer até dormir. Comer é tão pra dentro… Dizer é tão pra fora.

É por isso que estou aqui.

Estou aqui, principalmente, porque preciso escrever enquanto perco mais de 30 quilos, um dia conto o quanto. E aqui porque, enquanto escrevo, preciso perder outras coisas também. E porque preciso caminhar pra novas direções e em direção a novas palavras sem medo de perder as que eu já tenho.

“Quem perdeu, quem ganhou, agora tanto faz. Mais uma vez é tempo de recomeçar, deixar pra trás todo mal que eu já sofri”, como disse João Bosco na canção Tanto Faz….

Então é isso, cá estou mais uma vez em um recomeço. Corpo e escrita, fazendo destas páginas o que elas são: um lugar pra temer menos, um lugar pra viver melhor com a dor das perdas indesejadas, um lugar pra perder o que se deseja. Mais uma vez é tempo de recriar um mundo. Um nem grande, nem pequeno. Um mundo com seu próprio tamanho e do meu próprio tamanho. Quem sabe até, um mundo do nosso tamanho.




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