Oi, Vô. Tudo bem? Como você está?
Ontem o tempo apareceu aqui com uma surpresa: 20 anos se passaram desde o dia em que você foi embora. Foi vinte e um de julho de dois mil e vinte e seis o dia de ontem; eu não lembrava que “vinte e um do sete” era O dia. Mas meu pai lembrava, como sempre lembrou. Aí, não sei se você viu, ele comentou no grupo de WhatsApp da família sobre isso e a gente escreveu sobre a saudade que sentimos de você, sobre lembranças e sobre estarmos sempre juntos de alguma forma. Vovó mandou áudio, porque ela agora só faz assim, rs!
Meu tio, minhas tias e acho que quase toda a família também lembravam da data. Eu é que fico teimando em esquecer essa coisa de vinte e um de julho, sabe? Resisto a reter essa informação, acho que prefiro guardar o sonho que tive contigo logo após sua partida. Aliás, é possível que amanhã ou depois o nosso encontro naquele sonho também complete 20 anos. Lembra que você me abraçou no banheiro de visitas do último apartamento em que morou? Você estava surpreso, me dizendo que não havia morrido, que estava vivo. Muito surpreso em me dizer que a vida não tinha acabado. Eu me lembro muito, Vô. De você dizendo isso e do nosso abraço; você continuava mais alto que eu e foi um abraço de coração pra coração.
No sonho, eu senti um espaço no meu peito, um que nos momentos tristes doía de amargar, se tranquilizando. E depois disso segui quase sempre tranquila em relação a você, em paz com o seu destino, porque você então sabia, por suas conclusões, daquilo que eu intimamente sentia ser tão verdadeiro quanto as minhas dores. Você agora sabia que antes dos inícios e que depois dos finais um mundo inteiro existe, como uma luz que não se apaga.
Coincidentemente, sete meses antes, você estava passando uma temporada no Rio com a gente. Eu não esqueço dessa estadia sua e da Vovó, e por isso digo “coincidentemente”, porque os acontecimentos nos conduziram, nós dois, a uma conversa sobre mortes e perdas difíceis (se é que existem perdas fáceis…).
Nessa conversa, nós não falamos sobre a possibilidade de existir ou não vida após a morte, nem elocubramos sobre a morte na persperctiva de quem, de fato, morre e parte. Nós falamos sobre o que você conhecia até ali, sobre o ponto de vista de quem fica depois que alguém amado vai.
Você foi muito importante nessa outra data, essa cujo choque fez minha memória guardar, ao invés de esquecer. No dia treze de dezembro de dois mil e cinco, quando te contei estarrecida que naquela madrugada falecera um jovem de 23 anos, só um pouquinho mais velho que eu na ocasião; pessoa maravilhosa, cheia de talentos e planos, de quem eu era próxima, sobretudo de sua família.
Não que, infelizmente, eu não tivesse visto um jovem partir antes, mas, dessa vez, foi muito mais perto. Sentir no osso o sofrimento de pessoas muito afins foi duríssimo. Eu não sabia onde guardar ou o que fazer com tantos sentimentos. Buscava organizar a imensa dor que eu absorvia, mas que nunca alcançaria, dos que estavam à minha volta. E parece que, porque eu não sabia bem “como sentir” ou o que pensar, você, Vô, pensou por mim. E me disse com sinceridade destemida algo que me marcou. E que, imagino, só quem perdeu alguém drasticamente diria com tamanha propriedade: “Tem que ter calma, minha filha, tem que ter tempo. Uma parte da dor não vai passar, mas depois deixa de ser insuportável. A dor muda um pouco, ficam as coisas boas, fica a saudade. Mas o pior é agora e o pior passa.” Foi mais ou menos isso; se não foram exatamente essas as palavras, foi esse o significado. Você falava a partir da perda da sua irmã, que também partira novíssima.
Falava com uma certeza, com seus cabelos brancos, tão absoluto na sua experiência que, mesmo sem maturidade para entender a profundidade do seu dito, eu acreditei nele. Acreditei que o intransponível poderia, em algum momento, diminuir e caber no coração de forma mais amena, concomitantemente ao respiro da vida.
“Um dia a dor pode mudar, o pior pode passar”, foi o que guardei melhor.
Quem sabe, se a sua fala não fosse, no âmago, um completo mistério pra mim àquela altura, eu tivesse me lembrado dela posteriormente, em outros momentos de perda e dor; teria me ajudado. Mas não foi bem o que aconteceu. Sete meses à frente, depois que me despedi de você, em julho de dois mil e seis, esqueci por um tempo o ensinamento e a aura da nossa conversa. E só comecei a desvendar internamente esse mistério, a ideia de que as dores imensas das perdas, as dores que não cabem na gente, um dia podem arrefecer e existir sem apagar a beleza da vida, muitos anos depois.
Convenhamos, meu Vô, conceber harmonia entre marcas profundas da dor e a alegria de viver não é simples de se fazer com as próprias células e verdadeiramente, né?
Eu acredito que me perdi da nossa conversa em algum cantinho lá naquele tal espaço do peito. Aquele que contei, que amargava em horas ruins, mas que se tranquilizou quando te abracei no sonho. Porque com esse lugar no fundo eu passei, com o tempo, a lutar uma luta impossível: o projeto de amadurecer tanto que eu quase não sentiria mais as lancinantes dores a que estamos todos sujeitos, sobretudo a de perder. Eu não sabia imaginar uma realidade em que o bem estar, alguma plenitude e a dor pudessem realmente coexistir.
Ai, eu sei, falando assim soa vergonhosamente ingênuo… Mas é que eu escondi de mim mesma que estava planejando isso.
Acontece, Vovinho, que, enquanto jovem adulta, comecei a expressar gradativamente a maior parte das minhas tristezas através dessa dor no peito a que me refiro; ela era constante, ora suave, ora intensa, especificamente num ponto do lado esquerdo do esterno. E quando digo que “às vezes era de amargar” não é só poesia não: o amargo na boca era literal. Isso era radical demais para mim naquele tempo. Não que agora seja fácil sentir dores e azedumes, mas hoje meu coração é bem mais preparado e mais espaçoso.
À época, depois que perdemos você e outras pessoas, a presença desse amargo foi aumentando. Quando intenso, mas não tão amargoso, o incômodo era também expresso por uma dor aguda acompanhada de calor, quase ardência. Cheguei a ir no cardiologista para investigar se era mesmo tudo psicossomático. E era.
Por isso eu acho até natural que eu tenha fantasiado um futuro em que estaria quase livre de doer, por conta de uma suposta maturidade conquistada…
Esse lugar no fundo do meu peito provavelmente resumia em um só nó minhas piores experiências e medos. As lembranças das piores perdas de todos os tipos. O medo de perder mais e mais “minhas pessoas” e, assim, ficar sem amor. E, por tabela, também o medo de ser preterida, esquecida, insuficiente; tudo condensado, acho, que num medo de ser deixada para trás. Medo daquela sensação horrível de que fomos deixados sozinhos no mundo. Acho que isso me assombrava muito.
Mas sabe o que realmente aconteceu conforme eu fui amadurecendo, Vô? Algo bem parecido com o que você disse que acontecia com as perdas drásticas.
O tempo continuou passando e, surpreendentemente, meu peito começou a doer menos. Eu não fiquei livre de perder pessoas ou de ser preterida em alguns momentos, deixada em outros, nem de sentir dor. Pelo contrário, é a vida, afinal; no entanto, o outro lado, o lado de viver que é a alma sendo convidada a se expandir todo dia, aconteceu também.
Uma hora parece que me deu uma epifania; eu vinha fazendo, discreta e insistentemente, tanto esforço para me proteger de toda perda possível que, assim, eu nunca bancaria o pacote completo de estar viva….Entende? Claro que você entende. Bom, eu não posso me dar os créditos completos pelo insight. Muita análise no lombo, alguns tratamentos sérios pra depressão, toda a arte possível, amor, amizades que são riqueza, buscas espirituais, uma família que, apesar dos conflitos, se vê. Mesmo assim, Vô, você que foi professor sabe: nada como o aluno concluir e demonstrar sozinho o que lhe foi ensinado de tantas formas e em tantas aulas. Aprender não é nada se não isso: redescobrir pelo próprio corpo, palavra e autoralidade a roda que antes nos foi mostrada inúmeras vezes.
Hoje vejo, porque pude construir um chão pra ver, como eu me confundia. Eu confundia aqueles momentos em que a gente para tudo e se recolhe como um animal ferido com uma postura geral. Como se fosse possível vivenciar expansões plenas estando sempre condicionada a uma certa “retração por segurança”. Mas não é. Expansões plenas pedem plena entrega. E aí estou aprendendo a fazer algo pra além do recolhimento necessário diante da dor; que é amparar o que dói permanecendo em movimento. Particularmente, pra mim, é revolucionário.
Ô, Vô, queria tanto escutar o que você acha sobre isso tudo hoje em dia…
A verdade é que perder é inevitável, né? E doer também. O vazio é inevitável, o roteiro é incontrolável, ninguém entende de forma absoluta o que está fazendo e nada faz com que as coisas ruins sejam menos horríveis. E uma outra verdade é que se encolher no próprio peito diante do incontrolável pode, ao contrário do que se deseja, potencializar a dor, porque ela vai entrar de qualquer jeito, mas num coração apertado, né?
Coração com espaço é que é o lugar seguro, a margem de segurança. Coração com espaço pra falar, pra se escutar, pra pulsar em ritmos sortidos. Coração com espaço pra admitir e respeitar a dor inteira. Coração com espaço pra continuar. Coração com espaço pra sentir falta, com espaço pra lembrar. Coração com espaço pra respirar, pra acreditar, pra mudar. Coração com espaço pra se saber e ser dele o motivo e a companhia. Coração com espaço pra deixar entrar a vida e as músicas de outros corações.
É assim que faz caber, Vô? Foi assim que aconteceu com você? É assim que faz caber na gente o que se perde e, ao mesmo tempo, a força de viver? Com chão embaixo dos pés e espaço dentro do peito?
“Tem que ter calma, tem que ter tempo”, né, Vô? Mesmo quando a dor imprimi marcas ela “deixa de ser insuportável, muda um pouco, ficam as coisas boas”; o pior é na hora e o pior passa, não é isso?
Obrigada, Vovô querido, por ter me dito na hora certa e do seu jeito uma coisa tão importante pra se compreender. Eu, momentaneamente, me afastei do tesouro que você me deu, mas só porque ainda não entendia como usá-lo direito. O que os pais nos falam marca de um jeito, o que os avós falam marca de outro e, sem saber, você me marcou aquele dia me deixando uma boia cheia de pistas. Viu? Até que eu tenho encontrado.
Bom, neste exato momento já faz um mês e 3 dias que comecei a te escrever essa carta. Contigo, nesse texto, caminhei por tanta memória e tanta camada até chegar aqui, no fim; foi difícil, importante e bom. Pena que agora vou precisar me despedir de você outra vez. Mas tudo bem, porque a gente nunca se perdeu completamente e, conforme você me ensinou que sucederia, as dores mais doídas desse tchau já se foram. Além do mais, te disse, meu coração é mais bem preparado e espaçoso atualmente. Não só pra perder, aceitar, doer, seguir, mas também pra ganhar, amar, sustentar, viver, sorrir mais, lá naquele mesmo lugar no fundo. Por isso eu pude começar a te dizer isso tudo e por isso vou poder terminar também.
Obrigada pela companhia, Vovinho. Você sabe onde me encontrar, espero com todo meu espírito que esteja bem, te amo sem fim!
Um abraço como aquele do sonho, da sua neta “mais doce que o doce de batata-doce”,
Luiza.

Deixe um comentário