A primeira vez que pisei no consultório de um nutricionista acho que tinha uns 10 anos. Antes, a pediatra que me tratava já tinha tentado me ajudar a não ganhar mais peso do que deveria. Ela, no entanto, cuidava da minha saúde de maneira geral e sempre perguntava sobre as minhas emoções além de investigar sintomas físicos, então as sensações de ir ao nutri foram diferentes das de visitá-la; ainda assim me lembro de uma das conversas com a pediatra sobre não engordar que foi marcante.

Um dia, Drª. M (vou chamá-la assim) me disse, com carinho, que se eu tivesse crescido o que havia crescido e ficado com o peso anterior estava ótimo, porém, eu tinha aumentado a altura e engordado mais um pouco, passado outra vez do limite de peso determinado pelo livro, um que ela consultava sempre que me pesava.
“Mas está tudo bem”, ela disse, me tranqulizando.

Antes dessa pesagem me recordo de estar um pouco preocupada, mesmo a Drª M sendo alguém de muita confiança pra mim, e depois que ela me explicou o acontecido fiquei um tiquinho triste. Tenho guardado até hoje o incomodo que veio logo após ter sido constatado o ganho de peso: “mas eu nem percebi, eu não sabia.”

Talvez tenhamos conversado sobre atividade física ou sobre comer menos, não sei, mas a dúvida me marcou: “como faz para continuar crescendo pro alto sem engordar?”. Ali, a informação de que isso me deixaria magra ou no peso ideal era uma novidade completa, nem sei se eu entendia a lógica, mas mais misterioso ainda era o como. Como alguém cresce pra cima, algo natural, que o tempo faz com a gente sem a gente notar, e come menos pra não engordar, algo anti natural que eu mal percebi que deveria ter feito?

É sim, para uma criança sentir fome, apetite, até gula e não comer é completamente anti natural. Deve ser tão ruim quanto não ter fome e ser forçada a comer, é que isso eu não conheço. Criança vive e aprende a viver pela vontade, o desejo é tudo, toda a força propulsora, se não da vida, da infância. E se não é assim com todo mundo, comigo era. Eu sei, limitar as vontades pra melhor direcioná-las é uma questão de sobrevivência que os pais tentam nos ensinar (ou assim deveriam), mas, vejam bem, a comida desejada é como a água pra quem tem sede, a cama pra quem tem sono, o ar pra quem quer respirar fundo. É muito difíicl limitar e direcionar vontades dessa ordem quando se é pequena.

Evidente que eu não soube explicar com essas palavras e elaboração o meu encucamento, a tristeza e perplexidade diante da constatação da querida Drª. M. Mas gravei um condensado de sentimentos e alguma percepção de que não ter engordado na ocasição havia estado absolutamente fora do meu controle, o que, mesmo assim, me causou culpa.

Enfim, essa criança, mais tarde, aos 10 anos pisou pela primeira vez no consultório de um nutricionista. Esse nós vamos chamar de Dr. C.

Bom, aqueles tempos eram muito outros. No tempo do Dr. C não existiam redes sociais, ninguém postava o que comia, a frase “a nutri vai me matar” não era hypada.

Eram tão outros tempos que Dr. C me recomendou trocar Fandangos, que eu amava, por Skiny, em tese “mais saudável”. Só rindo mesmo! Que saudades de comer Skiny e achar que estava arrasando na proposta alimentar. Ali tem tanto sódio (outro dia eu comprei um) que só dá pra comer com um copo d’água ao lado.

Aliáis, só notei que Skiny é uma brincadeira com a palavra skynny (magro ou magra em inglês) hoje, lembrando do primeiro nutricionista. Que ironia, né? Um “salgadinho” ao qual só recorri na vida adulta em dias de gatilho e compulsão (raríssimas vezes, em minha defesa), que na infãncia me soava como uma maçã mas que provavelmente nunca me ajudou a ser magra, com um nome desses. Pois é, a indústria de ultraprocessados… Uma espécie de cassino do cenário alimentício; nunca joga pra perder e é potencialmente perigosa pra qualquer um. Quem nunca, né?

Mas o que importa aqui é que Dr. C me liberou o Skiny pra que eu suportasse dar um tempo do “meu Fandangos” e por isso eu gostei dele, rs.

Dias antes da consulta, mamãe conversou comigo algumas vezes me preparando, me explicando que precisávamos cuidar da minha alimentação pra tomar conta da saúde, isso incluia um pouco a questão do peso mas, principalmente, a anemia que eu havia adquirido. Essa foi a primeira de muitas vezes que um exame de sangue apontou que eu estava anêmica. Tendência do meu organismo que foi melhor controlada enquanto minha mãe cuidava da minha alimentação tal qual uma leoa, rs, mas administrada com altos e baixos quando a destitui desse posto. Pelo menos até agora, antes desse blog.

Não posso dizer que eu estava com medo de visitar Dr C. porque mamãe era esperta e deu tudo quanto era contorno. Em algum lugar estava até curiosa, mas sim, o ressabiamento e pé atrás naturais a mim estavam de olho.

Dr. C não perguntava das minhas emoções como a Drª. M, mas era bem humorado. Ele era homem, naquela época, se isso me assustava eu não sabia. Ali comecei a construir uma forma de lidar com profissionais autorizados a interferir na minha alimentação que me acompanhou por muitos anos: simpática e aparentemente disponível por fora porque já sentia culpa de precisar emagrecer; chateada e ofendida por dentro, porque comer é íntimo e quase sempre me senti invadida e julgada nessas consultas. Talvez a sensação de invasão se deva mais a minha personalidade do que a realidade dos fatos, mas o julgamento não.

Qualquer pessoa que tem obesidade pode atestar: a imensa maioria dos médicos que passam por nós julgam, com vontade e mal disfarçadamente, nossos corpos, história e comportamentos como se fossemos, de algum modo, inferiores por estarmos gordos. Não me lembro de ter sido o caso do Dr. C, mas foi o caso com outros profissionais da saúde, cada qual com seu jeito peculiar.

E posso garantir, quanto mais acima do peso, mais julgada será a pessoa. Como se fosse estúpida por estar escolhendo comer o que não deveria, como se tivesse cometido alguns crimes e diante desses médicos precisasse se redimir, como se não tivesse sido tocada pela “palavra da saúde”, não tivesse instinto de autopreservação, como se fosse, por fim, alguém com um alto grau de descomprometimento, que não tenta ou nunca tentou direito, que não tem suficientemente a famigerada força de vontade.

Então aqui vai um pedido sobre esse assunto, que em outro post posso desevolver melhor: queridos médicos que se confundem com a própria prepotência e saber, não estou romantizando a obesidade, estou falando de gordofobia pura e simples e não adianta revirar os olhos. Tenho muito respeito e gratidão pela medicina e pela ciência e também entendo que saber sobre saúde não lhes dá o direito de reduzir uma pessoa aos seus respectivos preconceitos e cegueiras. Por mais maravilhosos que vocês possam ser em muitos aspectos, atualizem-se, por favor, quanto ao funcionamento da doença obesidade e quanto a formas melhores de lidar com outros seres humanos. A vida é mais do que uma doença, e muito mais do que um só olhar e um só caminho.

Pois bem, Dr. C não queria, e nem que quisesse conseguiria, me traumatizar nesse sentido como outros médicos conseguiram mais à frente. Eu estava acompanhada de uma mãe que acabaria com ele em dois tempos se ele ameaçasse a cria, e, embora eu não soubesse explicitar isso em palavras tinha total noção de que estava protegida, por isso até gargalhar na consulta eu gargalhei.

Quando ele me disse que eu teria que limitar minhas conchas de feijão do almoço a apenas duas conchas rasas ou duas colheres de sopas cheias eu fiquei completamente CHOCADA. Como que, no mundo, feijão pode ser ruim e ter quantidade certa? Devo ter feito uma carinha de muito espanto porque ele e minha mãe começaram a rir e eu, em seguida, também. E, se não me engano, usar a concha como medida e adicionar uma segunda no prato foi algo que conquistei após meu espanto e revolta. Também defendi muito o direito ao meu purê de batata (céus, como eu amava loucamente um purê de batata), mas, sabe-se lá como, eu já sabia que a batata ia ser cassada, alguém já devia ter me dito que muita batata não era bom e engordava. Então, como já esperava, me conformei mais rápido a limitar a quantidade de colheres de purê.

Não tenho recordação de defender doces na consulta, acho que não era tão ligada neles e quanto a demais besteirinhas creio que também não fiquei preocupada. A estratégia do Skiny funcionou mesmo, fiquei relax sabendo que poderia substituir o Fandangos por outra gostosura. Nesse dia também descobri que excesso de cafeína atrapalha a absorção de ferro, não que eu bebesse café, mas tomava muito mate e tive de diminuir a incidência. Tudo bem, depois que Dr. C “se meteu” no meu feijão, o mate era o de menos mesmo… A gente “perde o direito de comer certas coisas” quando vai ao nutricionista, outra lição que a ocasião me ensinou. Não é um sentimento maneiro, mas como envolve saúde acaba sendo negociável.

Provavelmente levei muito Skiny pro recreio da escola, mas o que ficou na memória mesmo foi a salada de beterraba da mamãe: eu a levava pro lanche num potinho vermelho que jamais esquecerei na vida. O amor é uma coisa incrível mesmo, porque onde já se viu salada de beterraba no recreio com todas as outras crianças comendo coisas muito diferentes, ou no refeitório ou na cantina, correndo pra cima e pra baixo com pacote de biscoito na mão? Mas mamãe explicou que era importantíssimo curar a anemia e até a proeza de fazer a salada ficar gostosa ela conseguiu, eu me lembro do potinho não como algo negativo. É que eu precisava sentar pra comer a saladinha ao invés de correr pelo pátio com algum lanche “mais portátil”, tinha vergonha de comer no refeitório (apenas porque salada era diferente das opções dos meus colegas) e ficava sentada em baixo de uma arvorezinha. Alguma coleguinha me acompanhava nesses momentos, quase sempre, uma pena eu não lembrar quem. Mas quem me acompanhava mesmo era minha mãe. Eu olhava pro potinho quadrado vermelho, um clássico tupperware lá de casa, e sabia que ela estava comigo, então, no fim das contas, tava tudo bem.

E tava mesmo porque a anemia foi-se embora. Devo ter perdido peso, mas esse não era o foco principal do Dr. C, e se era ou ele não demonstrava ou eu recalquei; só lembro da comemoração do nutri em relação ao segundo exame de sangue, que apontou que meu ferro estava bom de novo.

Skiny, beterraba, duas conchas de feijão, menos purê, menos mate, zero Fandangos, um pouco de anemia, aquela balança enorme que o Dr. C tinha, igual da Drª M, exames, potinho vermelho em baixo da arvore, 10 anos, quarta série. São as memórias da primeira dieta séria que fiz, a primeira de muitas.

Não sei se eu já intuía que essa coisa de dieta ia durar na minha história. Tenho a vaguíssima impressão de que, ao mesmo tempo que queria me livrar do Dr. C, por mais bem humorado que ele fosse, algo me mostrava que aquela função, a função de tomar conta da comida, pairaria sobre mim. Será que eu já tinha vergonha do meu corpo, não apenas pelo processo natural de auto descoberta e crescimento, que gera timidezes, mas porque estar acima do peso era uma tendência? Será que eu já sentia a facilidade de engordar como algo, além de negativo, também “errado” da minha parte? Não estou certa, mas acredito que em algum nível sim.

Seja como for, dei um jeito de deixar pra lá essa impressão porque, ainda bem, tinha muito mais o que fazer. E depois eu lidava com isso, caso precisasse. Como, de fato, precisou.


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