Esta minha investida atual em perder peso é o 4º processo profundo de emagrecimento pelo qual passo. É também a 5ª dieta/regime/reeducação alimentar, como preferirem chamar, marcante que vivo.
A primeiríssima dieta da vida foi a descrita no post #2, eu era criança e o foco era tratar uma anemia. Havia a questão do peso, mas não me recordo do nutri ou de meus familiares falarem muito sobre isso, também não sei o quanto cheguei a emagrecer nessa fase. Não foi algo a que eu dei importância e, se dei, apaguei… Então ela não entra na “conta das grandes emagrecidas”.
E entre todas essas dietas e perdas de peso significativas, claro, ocorreram outras tentativas, se não de emagrecer, de investir em uma alimentação mais saudável, o que me manteve mais tempo estável em alguns pesos, sem ganhar ou perder.
Possivelmente citarei mais detalhes sobre os três primeiros grandes emagrecimentos anteriores ao de agora; tem tantas peculiaridades pra contar… Por enquanto, a título de ilustrar o vivido, condenso aqui cada um deles:
● Quando realmente me dei conta, com plena consciência, de que era capaz de perder peso interferindo na minha alimentação, sem médicos e nutris necessariamente, era adolescente. Fase perigosinha para se perceber isso. Não sei como é agora entre os jovens nesta fase, mas na minha adolescência, lá pra 1996/1997, anorexia (é bizarro afirmar isso) era uma moda meio secreta. Minha mãe, que já tinha migrado de profissão pra psicologia, havia feito um trabalho de campo sobre isso e conversou comigo sobre o quanto era perigoso deixar de comer. O que ela não sabe é que, antes dessa conversa e de eu saber que distúrbios alimentares existiam, um dia notei, sentada na cadeira de balanço da nossa sala, que eu estava ligeiramente mais magra (ou talvez desinchada) porque a calça jeans estava mais larga. Concluí que a única coisa que eu tinha feito de diferente nesse dia tinha sido, nem sei por que, comer menos. Pois é, na adolescência a gente pode sentir sim alguma diferença no peso num MESMO dia em que se começa uma mudança na alimentação, metabolismo jovem… O perigoso dessa situação é que quando eu vi minha barriga um pouquinho mais magra dentro da calça jeans, vislumbrei a possibilidade de ter um abdômen magro e lisinho, “sobrando” dentro da calça como as meninas das revistas que eu lia, como as garotas magras e desejadas da minha escola, como as atrizes novinhas… e esse vislumbre foi muito, muito sedutor. Não é que a partir dali eu tenha decidido parar de comer porque nunca estive desequilibrada a esse ponto, eu só cortei o pão “instintivamente” e diminuí bastante as porções. E até aí, poderia ter sido saudável… O chocante é que fiz isso a ponto de ficar com fome por consideráveis períodos de tempo, durante talvez uma semana de “dieta”, em que devo ter perdido uns 4 quilos ou mais, e eu não me importei. Não me importei em me autoinfligir fome. Incrível como a pressão estética sobre as meninas e mulheres e a gordofobia fincam suas garras na gente desde cedo; quando a gente nota, já estão lá com raiz e caule. Eu só queria perder barriga, como de fato perdi, e a “fomezinha” autoimposta não incomodou. O cálculo foi rápido e potencialmente arriscado, considerando minha imaturidade de então: comer quase nada = barriga das meninas consideradas bonitas. Talvez, se eu tivesse alguma fragilidade emocional assentada o suficiente pra seguir com essa “descoberta”, esse dia na cadeira de balanço tivesse sido o começo de um grande trauma. Ainda lembro da sensação de “eureka”: “se eu quase não comer eu perco a barriga rapidinho!”. Felizmente, considerei um projeto insustentável e não segui com ele. A barriga mais magra que me seduziu deve ter ido embora tão rápido quanto chegou. E devo ter fingido, pra me proteger, que isso não foi uma frustração. Porque eu recordo da cadeira de balanço, do emagrecimento veloz, da alegria, de pensar que comer pouquíssimo era uma ótima ideia, e, de repente, não recordo de mais nada. Algum tempo depois, já ciente de que anorexia era uma doença, aí sim testei passar um dia inteiro sem comer nada, apenas mascando chiclete, quem lembra do Babaloo? Testei porque me perguntei: “como essas meninas conseguem não comer? Será que eu consigo também?”. Eu, no fundo, sabia que não e também não tinha planos de desenvolver um distúrbio; não pela questão da saúde, pra ser bem sincera, mas porque não achava bonita a magreza esquelética. Eu também sabia que, se fosse por aí, meus pais interfeririam e eu não teria “forças”, ainda bem, pra levar adiante a história. Mesmo assim, mesmo sendo uma pessoa que sempre amou comer, eu testei. Um dia todinho. O perigo mora ao lado mesmo. Felizmente eu detestei a experiência, tive pressão baixa de noite, no meio do BarraShopping, acho que estava com a família de uma amiga. Não demonstrei a pressão baixa e me senti imensamente triste. Em dado momento rolou a proposta de um lanche, eu pensei em recusar, mas, ao contrário, ali decidi que aquilo era impossível. Disse pros adultos responsáveis que queria comer pão de queijo. Se existem anjos da guarda, o meu ali deve ter respirado aliviado e encerrado o turno, rs…
● Entre 18 e 19 anos ou 19 e 20, não estou certa, foi a vez dos Vigilantes do Peso. E essa era minha segunda passagem lá. Na primeira eles estavam na era das porções de comida sendo pesadas numa microbalança de plástico, que cada pessoa gorda adquiria ao “assinar” com a empresa. Eu achava chato pesar a comida. Não chega a ser um pouco irônico ou humilhante pesar o que se come? Não só você, mas o que você ingere precisa passar no crivo da balança… Eu fiquei pouco nessa época, devo ter perdido uns 5 kg e fui embora. Já na segunda vez fiquei um ano e perdi 15 kg, com a famigerada dieta dos pontos, que nada mais era do que uma técnica de contagem de calorias. Como imagino que aconteceu com outros perfis controladores, inicialmente eu adorei a possibilidade de poder, através de uma matemática simples, controlar toda a comida que passava por mim, o que me engordaria ou não, o que eu deixaria ou não entrar no meu corpo e na minha vida. Simbólico? Bobagem… rs… Com a contagem de pontos eu sentia ter controle sobre a própria compulsão, que na época era até leve, mas já havia se apresentado, e, claro que isso teve um lado muito positivo. Na minha experiência, compulsão precisa de borda, limite, se não ela vence. E, sobretudo, se não for arrancada pela raiz — seja por remédio ou por algum fator externo mais forte —, precisa ser substituída por outra ação. Fazer o que a compulsão “pede”, depois de um tempo, acalma. Ao menos, com comida, sempre foi assim comigo e sei que isso está ligado ao que o alimento procurado vai gerar no corpo em termos de hormônios e etc. Pois é, essa “calma” precisa chegar de outra maneira. A contagem de pontos entrou nesse lugar pra mim. O descontrole com o ato de comer foi substituido pelo controle em excesso. Eu não fazia atividade física, não meditava, não conseguia estudar música por muito tempo porque era hiperautocrítica, não existia Netflix com séries instigantes ou infinitas pra capturar a atenção pra outro foco e ler um livro quando se quer comer sanduíches gordurosos ou sobremesas nunca deu pra mim; nem terapia eu tinha começado. Toda a minha necessidade de controlar alguma coisa pra sentir que a vida não iria me atropelar, joguei na dieta. E a necessidade de acalmar minhas angústias comendo ou simplesmente de atacar açucar e gordura por descompensações hormonais várias, joquei também. E depois… adivinhem. Fiquei compulsiva com a contagem de calorias e o feitiço virou contra a feiticeira. No fim, fui perdendo o prazer de comer, coisa muito triste e inédita pra mim até ali. Um dia, almoçando com a família, olhei o prato de todo mundo e automaticamente calculei os pontos de todas as refeições. Me deu vontade de chorar. Nenhuma vontade de almoçar. Decidi ali que precisava desaprender a contagem de pontos, me recusei a perder completamente o prazer com a comida. E desaprendi mesmo a contar calorias; só de pensar em reaprender me dá um aperto no peito. Acabei engordando, bem paulatinamente. Tudo de novo pra mais. Não estava nos meus planos e, no início, foi realmente bem devagar; mas antes isso do que a prisão que gerei pra mim através dos pontos, que ainda por cima me demandava tanto esforço mental. Teria de ser de outra forma.
● Não sei exatamente como foi se dando, dos 19/20 até os 30 e poucos, o ganho de peso que ocorreu depois que larguei a contagem de pontos. Quanto pouco tempo fiquei magrinha ou quantos anos fiquei variando sobre um peso considerado saudável pela medicina. Quanto tempo fiquei com sobrepeso mas não obesa, em que anos exatamente se estabeleceram a obesidade e a obesidade mórbida. Ainda vou verificar nas fotos, me interessa essa linha do tempo associada aos eventos da vida. Em dez anos muita coisa aconteceu e nesse intervalo a medicina e a cultura que me atravessaram tiveram passagens menos e mais gordofóbicas, mas isso eu detalho depois. O que importa agora dizer é que, ao fim desse tempo, estava pesando 90 e poucos quilos e após longo processo perdi quase 35. Esse último emagrecimento antes do atual foi muito forte no quesito processos. Dessa vez sofri menos pra emagrecer e, surpreendentemente, magra foi quando mais lembro de ter sofrido. Há muito pra escrever sobre o que houve quando eu estava sendo considerada gostosa, vai render alguns posts; aqui vou apenas adiantar o que quase toda mulher já sabe: o machismo e a gordofobia nos encontram e se fincam em nós estejamos magérrimas ou obesas, muda só a forma, nunca a violência. Por enquanto, em nosso mundo, a garantia de mudança está exclusivamente na nossa lida com o que está posto… Bem, o terceiro grande emagrecimento começou a se desenhar quando descobri forte intolerância a glúten — na verdade, quando confirmei a intolerância, porque já havia descoberto anos antes com um médico; mas consegui a façanha de não entender, ignorar e esquecer a informação. Foi com uma educadora alimentar que entendi, quando estava investigando o porquê de estar sempre tão exausta, que teria que tirar o glúten da minha vida ou reduzi-lo quase a zero. O motivo pelo qual eu dormia o fim de semana todo e voltava a trabalhar na segunda ainda estafada não era uma outra anemia, nem depressão, e claro que tinha a ver com os 90 quilos, mas era também o trigo. Ali eu comecei a mudar lentamente minha alimentação orientada por essa especialista, que chamarei de E.R. Comecei pelo glúten e passei pelo suco verde, muitos chás, muitas frutas, sopas, leguminosas, proteínas, carbos saudáveis, altas receitas e talvez a alimentação mais milimetricamente funcional que sustentei na vida. Numa época em que a funcionalidade dos alimentos ainda não tinha virado mais um dos fanatismos da internet… Além de ter sentido quase que imediatamente os efeitos de cortar o glúten, eu tive outro estímulo: em 2010 havia sido internada em uma UTI com pneumonia silenciosa — que desenvolvi por conta de asma mal curada — e escutei de todos os médicos que com o pulmão daquele jeito e aquele peso eu podia ter morrido. E podia mesmo. A partir dali, fui me preparando internamente pro que eu teria de enfrentar, não só voltando a encarar os cuidados com a asma, mas, principalmente, com o peso. A dieta da E.R. era hipertrabalhosa, pro meu cotidiano eu diria até que radical; no começo eu chorava porque não dava conta de tudo. Mas E.R. era acolhedora e repetia em toda consulta que eu precisava ir adicionando os novos hábitos bem aos poucos. Que era normal eu ficar emocionalmente instável e ter oscilações de humor, e que a chave era fazer tudo sem pressa. Eu já estava há anos na análise e há anos já tinha superado a primeira depressão, a pior de todas. Já tinha lançado meu primeiro álbum, já estava formada, era uma cantora e professora de canto feliz com meu trabalho; eu estava mais forte. A tarefa era árdua, mas eu podia fazê-la. Depois de meses sem consumir glúten e me adaptando dentro do possível à nova alimentação, entendi que estava pronta pra perder todo o peso que era necessário, mas que precisava de mais ajuda. Não que eu estivesse me relacionando com a comida da maneira pesada com que terminei a dieta dos pontos, mas eu percebia picos de ansiedade em que a compulsão alimentar era dificílima de ser redirecionada. Entrei em contato com a Dra. P., minha psiquiatra, e na consulta decidimos que eu tomaria uma medicação chamada BUP. Um remédio que era muito usado (não sei se ainda é) pra auxiliar tratamentos de obesidade e outros que envolviam ansiedade e compulsão. A bupropiona ajudou muito, não que tenha sido moleza a partir do momento que essa medicação entrou. Ela apenas tornou o projeto possível. Ali eu deveria ter notado que obesidade é de fato uma doença que precisa e merece ser tratada transversalmente. Mas essa consciência chegaria depois; nesta época, por incrível que pareça, eu separava a ansiedade e a compulsão do quadro geral. De alguma forma ainda achava que aquilo tudo era 100% culpa minha. Culpa de uma má administração da minha personalidade. Não que a Dra. P. não tenha tentado me esclarecer o contrário, eu é que não pude ouvir mesmo. Se não me engano, levei ao todo 3 anos para perder os 35 kg e só comecei a aparentar uma diferença gritante no último. Fiz atividade física nesse período, mas praticamente só aeróbico. Eu detestava o ambiente da musculação na academia e essa parte não superei à época. Isso significa que quando eu cheguei a pesar meu menor peso de então, 57/58 kg, eu estava bem fraquinha. Não tive flacidez excessiva ou sobra de pele, talvez pela idade, mas faltava força. Do mais, 58 kg foi exagero meu, teimosia. Nem acho as fotos desse tempo tão bonitas. Pra chegar nesse peso, no finalzinho da dieta, eu substituía o café da manhã apenas por café preto, mesmo sabendo que era errado. Foi forçação de barra. Durou pouco, e eu passei mais tempo mesmo entre 60 e 62 kg. E aí, nesse ínterim, magra, pouco músculo, me sentindo fraca, tentando ser dona de uma nova eu, descobrindo novas intolerâncias alimentares após 3 anos de dieta (ninguém merece) e impactada pelo que fui encontrando como mulher desejável socialmente, novas dores, sofrimentos que eu não previ, vieram se apresentando e se misturando à alegria de eu ter conseguido bater minha meta. Foi, sem dúvida, uma vitória gigantesca. Mas foi, mais ainda, uma surpresa o que estava do outro lado do arco-íris… Eu não levei outros 10 anos para voltar a engordar, mas pra pesar 105 kg, o peso que eu tinha quando comecei esse blog, foi exatamente esse o intervalo temporal. Mais outra década e mais dez quilos pra conta final. Um ganho que é papo pra outro texto.
Quero terminar dizendo que tenho um enorme amor pelas Luizas que perderam peso antes desta que escreve e uma compreensão especialmente carinhosa com a que pesou 57/58 kg aos 32 anos. Eu me lembro bem como era ser aquela mulher, naquela fase. Hoje posso ver, mais que na época, o quanto eu ainda tinha medo guardado em meu coração. Medo, idealizações, ilusão. Um medo proporcional ao quão linda eu estava e um desconhecimento da mulher que eu viria a ser. Eu tinha 32, mas hoje fecho os olhos e boto essa Luiza no colo como se ela ainda fosse um bebê e uma menina. Minha menina que emagreceu aos 14, aos 20 e aos 32, rs… Eu a amo e ela me ama também, porque sabemos que hoje, com 86/85 kg, somos muito mais felizes e inteiras, mais bem resolvidas, mais fortes que nessas fases de magreza e tão belas quanto. Conhecemos, hoje, bem melhor nossos quereres, saberes, poderes e limites. Sabemos que a nova meta de peso menos importante que o todo, mas que ela será alcançada, e, principalmente, que estamos perdendo peso dessa vez para ganhar mais do nosso próprio mundo. Nunca outra vez pra nos sujeitarmos ou nos apequenarmos diante do que o mundo alheio nos exija sobre forma física e conteúdo.
Durmam tranquilas, Luizas das dietas passadas, durmam e respirem tranquilas, chorem suas dores, deixem ir as mágoas e os autoenganos. Quem guia o barco agora sou eu aqui e nós estamos a salvo.

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