Comentei há quanto tempo me sustento nesse corpo? Acho que brevemente, né? Hoje, em 2026, são 42 anos de vida nele.
Passa tanta coisa na minha cabeça pra escrever sobre, do passado e do presente.
Acho que até aqui, no blog, sobretudo no post #3, me senti compelida a revisitar passagens doloridas da memória corporal.
Pois me deu vontade de falar mais do agora e, no agora, já estou convencida de que pra viver nesse mundo não basta apenas uma cabeça, como em certo momento desejei que fosse possível…
Um dia cheguei a falar assim na análise: “seria tão mais fácil se eu fosse só uma cabeça que flutua”…. Rs… As coisas que a gente pensa…. Não sei se seria tão mais fácil assim não, acho que eu estaria muito isolada e com menos ferramentas pra perceber as realidades. Não dá, pra viver por aqui é necessário um corpo inteiro, tanto é que é assim.
E o que seria um corpo inteiro? Acho esse um caminho interessante pra falar de como estou atualmente. De certo que um corpo inteiro não é aquele que possui ou mantém todas suas partes e funções em “perfeitas condições”.
Nem sei se isso seria possível pra qualquer humano. Mas sei que, se assim fosse, eu não poderia me considerar inteira como me considero.
Desde os 6 anos, por exemplo, meu cotovelo esquerdo não é mais como o original de fábrica, quebrei pulando no trepa-trepa e tive de operá-lo. Desde os 22 meu ovário esquerdo não aparece nas ultrassonografias, de tão pouco que sobrou dele após a retirada de um cisto na área.
Entendendo inteireza assim, como sinônimo de perfeição ou como um equilíbrio simétrico, estático, infalível, ninguém passaria. Eu nem precisaria ter citado operações; as vivências com alergias, anemia, depressão, obesidade, mesmo um astigmatismo, uma vista cansada ou o fato de que não fui desenhada por uma IA, já me deixariam fora da possibilidade de ser-estar inteira com meu corpo, como corpo.
Coisa que não procede porque hoje me sinto inteira nesse aspecto e em paz como em poucos períodos me senti. Spoiler: não, eu não estava magra ou de dieta em todos esses períodos. Eu estava era me relacionando bem com o meu corpo. Hoje nem se fala, ser mais madura realmente faz diferença pra melhor na minha relação comigo mesma.
E é disso que estou falando quando falo sobre um corpo inteiro: sobre a relação que temos conosco e sobre o quanto isso passa pelo nosso território corpóreo. Corpo é o lugar onde a consciência está ancorada, o continente particular de cada ser que vive e onde tudo se dá; a emoção, o pensamento, a ação. A percepção, a proteção, o movimento. É uma única casa habitada pelo medo, pela coragem, pelas verdades, pelas mesquinharias, pela singularidade, pelas mentiras, pelas grandezas. Imagina viver sem corpo por onde distribuir isso tudo? Sem um pedacinho de matéria só nosso onde se esconder sem pagar aluguel, sem ter um instrumento pra se expor quando dá vontade?
Corpo é pra isso, é pra gente experimentar o existir, pra contarmos as coisas pra ele e escutá-lo responder, gravar, processar, devolver. Pra mim, estar inteira no próprio corpo é manter atualizado o relacionamento com ele. É não passar por cima, não ignorar o contato, o diálogo com essa nossa concretude. No meu aprendizado com o canto e, posteriormente, no geral, entendi que dialogar comigo e com tudo o mais também passa por aí.
Estou falando isso tudo porque seria muito fácil começar esse texto descrevendo meu peso e altura e falando sobre os pontos da saúde que preciso e desejo recuperar. Já que aqui, apesar de pensar amplamente sobre medo e perda, estou focada na minha história com a obesidade e no meu atual processo de emagrecimento. Mas isso seria reducionista e injusto com todo o universo que é o meu corpo e que são todos os corpos.
Por isso, antes de mais nada, antes de quilos e centímetros, preciso dizer que não corroboro com visões de saúde que empobrecem a existência alheia. Que reduzem corpos aos seus respectivos pesos, exames de sangue, performances, doenças, condições, características, partes. Ninguém é a parte. Somos um todo.
Esses vieses, inclusive, fortalecem não só a gordofobia como uma série de outros preconceitos que atingem muita gente.
Pensar corpo como parte, almejar ideais inalcançáveis, rígidos, excludentes de estética e performance, incentivar o entendimento do corpo como se fôssemos máquina e não gente, não desmerece apenas a existência de pessoas gordas, PCDs, transgêneras, idosas e tantas outras que pertencem a grupos marginalizados por conta de seus corpos.
Guardadas, evidentemente, as devidas proporções das opressões estruturais, não entender o corpo prioritariamente como ferramenta do existir, sobre a qual cada um pode e deve testar e exercer a própria soberania, exclui absolutamente qualquer um. Ninguém aguenta ser apenas forma pra viver se adequando às demandas de fora. E corpo é principalmente conteúdo.
Não digo nada disso buscando menosprezar cuidados com a saúde física, viu? Que acredito ser a primeira coisa que vem à mente quando o assunto é obesidade. Digo porque estar inteira in mim é, justamente, o que me permite ter segurança hoje para passar novamente por um processo de emagrecimento.
Eu me prometi, depois da última vez que engordei substancialmente, que nunca mais faria dieta enquanto não gostasse de mim e do meu corpo estando gorda. Enquanto eu não pudesse me amar em qualquer peso, não apesar do peso, e reconhecer minha beleza independente de qualquer olhar crítico sobre a minha gordura, não apostaria novamente em emagrecimento, sou eu quem sabe o quanto isso me custa.
Ganhar muito peso não passa incólume, mas perder também não. Tomei essa decisão pra não correr o risco de me violentar outra vez, mesmo que minimamente, em novas dietas. Não quis mais arriscar perder peso misturando meus processos com pressões sociais doentias que fazem a mulher não magra se sentir indigna. Em nome de atender à beleza padrão esperada de todas nós, já me machuquei o suficiente. Não que a compulsão alimentar, o excesso de peso e outros aspectos da minha obesidade tenham estado isentos de violência ou autoviolência, mas é diferente e falo sobre isso em outro post.
Ao contrário do que possa parecer, essa decisão, de não perder peso antes de gostar mais profundamente de mim, não foi exatamente fácil ou cômoda de tomar e sustentar, nem livre de sofrimento. Mesmo quando tentei ignorar meu corpo, lá atrás, quando ele avisava que eu estava estafada e deveria trabalhar menos, mas fiz a sonsa e continuei trabalhando loucamente, ou quando parei de cuidar da asma porque não aguentava os infinitos tratamentos, ou quando parei de evitar alimentos aos quais sou intolerante por exaustão, mesmo aí não foi fácil. Ignorar o próprio corpo é um esforço em vão. Dificulta toda a nossa vida, ainda que a gente não note.
Mas amar a si e ao próprio corpo independente de quanto se pesa, na nossa sociedade, definitivamente não é molezinha. É trabalheira psíquica intensa. É, inclusive, posicionamento político mesmo que não se pense no assunto.
E depois que você passa a se ver com melhores olhos é também aceitar que isso não muda nada em relação ao olhar de muitas pessoas. É se arrumar e se achar bonita mas também saber que pra grande maioria esse olhar não vai existir, que majoritariamente seu corpo gordo não será recebido como belo, desejável ou tão merecedor de estar em diversos locais e situações. Eu aprendi a relaxar com isso, até porque, como mulher hétero (as amigas que sofrem desse mesmo mal sabem do que eu estou falando, rs) muitas vezes ninguém, ninguém mesmo na pista me interessa. Mas, novamente, porque aprendi a relaxar não significa que não há sofrimento, me senti várias vezes desestimulada a me arriscar em seduções por estar acima do peso…
Outra coisa desagradável de se estar gorda é ficar o tempo todo se perguntando “será que estou com gordura no fígado?”, “será que estou sobrecarregando meu coração?”, “será que assim estou dificultando o controle da asma?”, “será que estou em risco?”. Principalmente porque a resposta pra essas perguntas, durante um bom tempo e no meu caso, era sim.
Então não, não é simples amar o próprio corpo gordo, não é simples bancar o próprio corpo gordo no mundo, não é fácil ou cômodo não emagrecer o próprio corpo gordo ou não fazê-lo antes de estar inteira nele. Mas era disso que eu precisava pra estar aqui.
Assim é meu corpo hoje, inteiro em mim e vice-versa. E eu gosto dele, de verdade. Com sobrepeso mesmo e, provavelmente, com algum lipedema nas pernas (essa parte ainda não investiguei direitinho). Eu gosto dele e está faltando músculo, meu braço ainda é bem fraquinho e com gordura sobrando. Gosto dele e tenho umas manchinhas na pele que lembro da história de cada uma, quando e por que estão lá. Gosto dele e tenho muito cabelo branco, há mais de 15 anos, mas pinto o mais próximo possível do castanho escuro que eu tinha, porque eu adoro. Gosto do meu corpo tendo 1,62 e, até ontem, 88 quilos. Estava com 105 quando comecei a escrever por aqui. Gosto dele e a asma está sob controle porque, demorei, mas encontrei O pneumo. Como disse, estou com gordura no fígado e esse é um dos meus maiores estímulos a perder peso. Adoro minha boca, olhos, sobrancelhas e, graças a minha mãe, o bom colágeno que tenho pra minha idade. E gosto que a minha unha nasce naturalmente mais quadrada. Quando desisti de lutar contra ela – eu lixava redondo – ficou muito melhor.
Tem também uma coisa interessante na minha relação com o corpo que é: se alguém que eu amo está em muito sofrimento eu sinto no meu tórax, mesmo de longe. Às vezes eu “adivinho” quem é a pessoa e até faço contato, em outras eu espero, uma hora, seja quem for que está sofrendo vai se apresentar e quando isso acontece a gente conversa; aí o senso de urgência que se apossa do tórax vai passando. Quando eu estou em muito sofrimento também sinto no tórax, com bem menos aperto que no passado. Há também um revezamento com a lombar e a cabeça no quesito somatização, rs, mas passamos bem. Quando estou feliz sinto, igualmente, reverberação na área torácica; espaço, frescor, às vezes um quentinho bom. Quase sempre, lá dentro tem estado calmo.
A depressão está tratada e o emagrecimento sendo monitorado pela endócrino, pela nutri, pelo pneumo e pela psiquiatra. Vou falar detalhadamente sobre isso no próximo texto.
Eu eu amo, amo como eu e meu corpo cantamos juntos desde que existimos. E como a gente construiu uma carreira na arte e na docência. Amo a quantidade de caminhos técnicos e expressivos que a gente possui e as tantas lembranças que temos da minha construção profissional. Eu já enfrentei com esse corpo cada desafio que dá outros muitos posts. Ele me serviu tanto… E quando passamos maus bocados me defendeu direitinho, exatamente como eu precisava. Tanto se fechando quanto indo à luta. Também amo o quão plástico, adaptável e forte ele se provou em todas as fases da minha vida. Hoje, o que eu mais sinto pelo meu corpo é gratidão e orgulho. Eu sei e ele sabe, em cada cantinho da gente, o quanto tivemos que nos entender e trabalhar pelas nossas conquistas, sobrevivências e superações. E o outro tanto de coisa boa, de alegrias, prazeres e espaços que vivenciamos e desejamos regar e preservar.
Aqui, nesse corpo, toda a minha vida acontece. E por isso, hoje, eu o amo.

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